terça-feira, 4 de agosto de 2009

super-protegido

Sou um grande fã do homem e piloto Nelson Piquet. Acho que não tem como alguém que gosta de carro, corrida de carro, entende um pouquinho de automobilismo e conhece um pouquinho da história do tricampeão mundial Nelson Piquet não ser fã desse cara. Talvez uma das melhores histórias de qualquer piloto na história da Fórmula 1. Vários ralaram muito pra chegar lá, alguns até mais do que ele... vários fizeram muito sucesso, em termos de resultados, até mais do que ele. Mas talvez a mais gloriosa combinação de trabalho e sucesso da história da Fórmula 1 seja a de Nelson Piquet.

Michael Schumacher, Juan Manuel Fangio, Alain Prost e Ayrton Senna conquistaram resultados mais expressivos. Certamente, nos tempos em que a Fórmula 1 era mais corrida de carro do que negócio milionário, outros pilotos ralaram mais pra chegar lá. Mas apenas para quem não sabe, Nelson Piquet iniciou sua carreira no automobilismo como mecânico em Brasília, claro que um mecânico chique, filho de Ministro do Governo Federal, mas um cara que foi trabalhar e sujar a mão de graxa pra poder sustentar suas primeiras aventuras nas pistas escondido do pai e com recursos próprios, na época que automobilismo era só corrida de carro, bons tempos... correu de kart, Fórmula Vê... conseguiu apoio e patrocínio para correr na Europa, foi campeão na importante Fórmula 3 Inglesa, mas morando na oficina, botando a mão na graxa e trabalhando duro como mecânico do próprio carro, não tinha uma equipe estruturada e cheia de coisa como se vê hoje... imaginem hoje um piloto apertando um parafuso, ficaria feio na foto... hoje os pilotos tem assessoria de imprensa desde o kart, automobilismo virou negócio, marketing, tem mais glamour do que esporte... e um dos pioneiros dessa fase glamourosa do automobilismo foi nosso grande Ayrton Senna, um dos pilotos mais talentosos de todos os tempos, mas um dos primeiros dessa geração de pilotos glamourosos, que tinha assessoria de imprensa desde as categorias de base enquanto o já campeão de Fórmula 1 Nelson Piquet se vingava da imprensa que o desprezava enquanto ele sujava as mãos de graxa. Ayrton era um grande piloto, mas levou o marketing a níveis que hoje sufocam o próprio esporte. Na mesma época em que surgia a lenda Ayrton Senna, Bernie Ecclestone assumia a liderança da Fórmula 1, levando a essa fase atual em que o negócio sufocou o esporte, a política sufocou as corridas de carro.

Ayrton Senna se tornou uma lenda devido a sua habilidade e cenas que marcaram sua bravura dentro da pista, deu show e merecidamente é considerado o melhor piloto de todos os tempos. Mas nasceu em berço de ouro, teve dinheiro, estrutura... Nelson Piquet batalhou pra chegar onde chegou, botou a mão na graxa e dormiu no chão quando foi preciso, mas chegou lá, e graças a todo esse conhecimento que adquiriu em anos de trabalho e esforço, foi um dos pilotos que mais entendia de carro e mecânica na história da F-1, e isso lhe deu uma grande vantagem... todo aquele esforço nos primeiros anos de sua carreira o transformaram em um grande piloto, que chegou a um glorioso tricampeonato mundial. Entendia a equipe, o carro, os mecânicos... suas dificuldades o fortaleceram e se tornaram suas vantagens na competição contra outros gênios das pistas de sua época. Foi talvez o período mais fértil da F-1, com Nelson Piquet, Ayrton Senna, Alain Prost e Nigel Mansell. Este último que, apesar da enorme habilidade, não devia entender tão bem o carro... venceu mais corridas que Piquet, mas apenas se tornou campeão com um carro imbatível nas mãos.
Infelizmente, talvez o próprio Nelson Piquet não tenha se dado conta da importância que seu trabalho duro e esforço com poucos recursos que enfrentou no início de carreira, tiveram no sucesso que ele alcançou. Suas dificuldades o fortaleceram. Infelizmente muitos pais não tem essa percepção após alcançar o sucesso. Sabem como é difícil passar dificuldades e não querem que seus filhos passem pelas dificuldades que eles passaram. Querem o melhor para seus filhos, e fazem de tudo por eles. Mas como de boa intenção o inferno está cheio, o que acontece com os filhos de pais super-protetores é que eles perdem a oportunidade de aprender e crescer com as dificuldades.
Nelson Piquet, o grande tricampeão, sempre acreditou que seu filho seria melhor piloto do que ele e se tornaria um grande piloto de Fórmula 1. Desde pequeno seu filho Nelsinho teve do bom e do melhor no kart. Seu pai montou uma equipe própria na Fórmula 3 Sulamericana, com estrutura e equipamentos de ponta, o melhor motor da categoria, carro reserva, uma equipe sem economia em pessoal, escolhido a dedo, para cuidar com exclusividade de apenas um carro. Sem frescuras, enfeites e perfumaria, sem marketing e assessoria de imprensa daquelas escandalosas... mas tudo do bom e do melhor na parte técnica. E assim foi campeão sem grandes dificuldades. E assim seguiu com equipe própria montada pelo pai na Fórmula 3 Inglesa e até na GP2. Sempre correu em equipes onde até os engenheiros e chefes de equipe trabalhavam para seu pai. Cheio de orgulho e bons resultados nas categorias de base, não queria estrear na Fórmula 1 em uma equipe pequena. Estreou pela Renault, equipe grande, forte... muitos bons pilotos levam anos em equipes menores na busca por uma oportunidade dessas. Precisam mostrar muito serviço pra conseguir.

Foi assim com Rubens Barrichello, tão criticado por Nelson Piquet, que precisou de anos conquistando bons resultados em equipes pequenas até ser contratado pela Ferrari. Chegou lá e fez bonito. Reclamou muito, pois a equipe favorecia o campeão alemão. Sem dúvida favorecia, e com razão. O alemão assumiu uma equipe Ferrari que buscava recuperar a glória do seu passado, e com uma ótima equipe técnica, ao lado de Jean Todt, Ross Brawn e Rory Byrne, Schumacher tirou a Ferrari da pior fase de sua história e a reergueu a ponto de alcançar uma supremacia e uma fase de vitórias que se tornou a mais gloriosa da história da equipe. Rubinho reclamava demais, pois Michael fez por merecer todos os privilégios... ou quase todos, afinal ser obrigado a entregar vitórias como aconteceu com Rubinho mais de uma vez foi uma ofensa ao esporte. Ainda me pergunto se aquela pane seca no GP do Brasil que Rubinho tinha tudo para vencer não seria um castigo amargo ao rebelde e falador brasileiro...
Barrichello foi passado para trás na Ferrari, mas para ser obrigado a ceder posições e vitórias ao alemão, ele precisava estar na frente, e apesar de toda preferência da equipe por Schumacher, Barrichello o superava com frequência. O mesmo Schumacher capaz de gerar debates sobre quem é o melhor piloto da história da Fórmula 1... criticado por reclamar demais e chamado de chorão, alvo de piadas de humoristas e analfabetos em automobilismo, Barrichello sempre teve Nelson Piquet como um grande e respeitável crítico. Que mordeu a língua. Nelson Ângelo critica a equipe por favorecer Alonso, mas ele nunca foi obrigado a ceder posições ao espanhol porque não anda na frente. Credita maus resultados a táticas erradas e ventos que só atingem o carro dele. A equipe não dá apoio, Briatore é um carrasco. Pode ser... mas ele fez questão de esnobar equipes pequenas e fez questão de estrear em equipe de ponta, na Fórmula 1, equipe de uma das maiores montadoras do mundo... bem diferente das equipes que ele conheceu durante toda sua carreira... Nelsinho não estava preparado para o choque. Ele estava preparado para trabalhar com pessoal e equipamento de ponta, vencer corridas... foi preparado para o sucesso... não estava preparado para ser cobrado, para superar os limites de seu equipamento e superar os adversários... estava acostumado a ter o melhor equipamento e nunca precisou fazer grandes esforços para vencer.

Mas acredito em Nelsinho. Vi de perto quando estava na F-3 Sulamericana. Vi ele entrar no vácuo de um carro mais lento na reta e sair a apenas 30 cm, a 230 km/h. Eu me abaixei atrás da mureta para fugir dos destroços e fiquei esperando a porrada... e então percebi que ele não era apenas mais um filhinho de papai. Conheci ele pessoalmente e sei que apesar da aparência de ser metido, é apenas quieto, reservado e gente boa como o pai. Que aliás, também tive o privilégio de conhecer pessoalmente. Toda admiração que tinha por ele, por sua história e vitórias, foi multiplicada pelo grande homem e pessoa que pude ver de perto.
Não sou ninguém para dar conselhos ao grande Nelson Piquet. Mas se pudesse dar um conselho a um pai que por querer o melhor para o seu filho, acaba tirando dele a oportunidade de aprender e crescer com as dificuldades, diria para ele dar um tempo com o sonho da Fórmula 1. Seu filho está pronto como piloto para pilotar os melhores carros. Mas como homem precisa aprender a lidar e superar as dificuldades. Exemplos como esse estão a nossa volta o tempo todo. Pais que podem facilitar a vida dos filhos, mas acabam impedindo que eles cresçam e se fortaleçam com as dificuldades. Pessoas que precisaram superar dificuldades, normalmente chegam mais longe e alcançam vitórias maiores que aqueles que nasceram em berço de ouro. Se Nelsinho seguir na Fórmula 1 em 2010, tende a se queimar definitivamente. Espero vê-lo um dia vencendo ali, mas as vezes é melhor dar um passo atrás para poder dar dois a frente. Faria bem a ele passar o resto desse ano e a próxima temporada correndo de rali, ou na Fórmula Indy. Mas não com o melhor carro e o melhor equipamento. Na pior equipe com todas as dificuldades possíveis e baixo orçamento. O que Nelsinho precisa é aprender o caminho das pedras, superar as dificuldades e fazer o melhor possível, dar tudo de si e andar mais que o carro. A única terapia que ele precisa é a mesma terapia que tornou seu pai um vencedor, a Terapia da Vida.
Todos conhecem filhinhos de papai que fracassaram na vida e perderam tudo. Sou de uma pequena cidade do interior. Tenho um amigo que é filho e neto dos proprietários de uma das maiores fábricas da cidade. Antes de terminar o colegial, ele começou a trabalhar na fábrica. Nada de ar-condicionado. Foi pegar pesado e começou de baixo, aprendeu a fazer tudo na produção, desde limpeza a montagem. Pegou pesado. O pai ia para a fábrica de F-250. Ele ia de bicicleta. Depois de moto velha. Então uma moto nova. Entrou na faculdade de Administração e só depois de conhecer na prática todo o processo de produção foi trabalhar na administração. Agora está terminando de construir a própria casa com o dinheiro dele e vai se casar esse ano. Ele ralou bem mais do que precisava. Mas o mundo está cheio de playboys que nunca ralaram e não deram em nada. Sofrer faz parte da vida. Uma parte indispensável.

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